sábado, 26 de março de 2011

Rosinha

Entre o castanho-dourado apelativo das soleiras da porta e o cheiro a madeira de pinho sopra a benevolência numa casa onde, outrora, corriam tempestades de palavras duras e premissas com o mesmo efeito de uma navalha cravada num ponto vital do corpo. Mudança, mudança.
Silêncios deram lugares a gargalhadas bem sonoras. A outrora hostil melodia das madeiras rachadas, das secretárias e outros mobiliários decorativos a cair em pedaços pela madrugada, deu lugar à melodia do gira-discos que há muito foi largado ao pó na dispensa zoológica. Havia som! Mudança, mudança.
As cortinas amareladas da pedraça e do bolor foram-se. No seu lugar constam agora umas vindas de Paris, mandadas pela tiazinha não sei de quem, onde figura um padrão vistoso de flores e símbolos, um pouco espalhafatoso a meu ver. Substituíram-se também os sofás pestilentos e, agora de pele, são o encosto de muitos dos convidados de face sorridente que, com os donos da casa, tomavam o chá. Deixara de haver bolor, negrura e fome. Mudança, mudança.
Onde habitavam fantasmas, vivem agora pessoas. Vivem, literalmente e com todos os fundamentos e letras. Vivem!
Um dia espero eu... a mudança, mudança.

3 comentários:

  1. Muito bom :)

    E sim nunca nada é em vão...tudo têm um sentido ;)

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  2. =) Obrigado
    Dava uma linda declaração, não é?

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  3. Belíssimo! uma narrativa muito bem elaborada

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